Sabe aquela velha história de que os psicólogos escolhem essa profissão para tratar os seus próprios problemas? A cada dia que passa estou mais propensa a acreditar nessa teoria. Longe de mim generalizar e afirmar que a maioria desses profissionais está fadada a encontrar a cura para si mesmo como o personagem do conto de Machado de Assis. Mas ultimamente sempre que me deparo com uma personalidade um tanto quanto extravagante, e, digamos, fora dos padrões de normalidade, mais cedo ou mais tarde descubro que é um discípulo de Freud. Seja pela maneira como divaga sobre todo e qualquer assunto, seja pela forma peculiar que esses seres têm em parecerem verdadeiros desbravadores da alma humana. Leia-se: donos da verdade. Detentores dos segredos mais recôndidos do universo.
Eles têm o poder de fazerem com que nós, simples mortais, pareçamos completos idiotas sem o controle da própria vida. Como se nem ao menos nossos pratos preferidos fossem mesmo nossos pratos preferidos. – Você não sabe na verdade se esse é seu prato preferido. Isso é o que você pensa ser seu prato preferido. Você ainda tem muito que aprender sobre o tipo de comida que realmente gosta.
Eles têm o poder de fazerem com que nós, simples mortais, pareçamos completos idiotas sem o controle da própria vida. Como se nem ao menos nossos pratos preferidos fossem mesmo nossos pratos preferidos. – Você não sabe na verdade se esse é seu prato preferido. Isso é o que você pensa ser seu prato preferido. Você ainda tem muito que aprender sobre o tipo de comida que realmente gosta.
Isso me faz pensar se estou me escondendo atrás de um prato de bife com batatas fritas, em uma tentativa de fugir da realidade e ocultar o meu verdadeiro eu que, na verdade, gosta mesmo é de frango com quiabo.
Mas não se preocupe, de qualquer forma, na melhor das hipóteses, um bom psicólogo te ajudará a solucionar esse grande impasse gastronômico em menos de quinze sessões. Talvez vinte. Isso vai depender da sua entrega ao processo.
Fazem parte também do grupo de profissionais que adoram distribuir amostras grátis. Ou seja, se você encontrar um psicólogo na rua, na fila de um banco ou na balada saiba que ele vai te analisar, mesmo que você não tenha pedido ou pagado por isso. Mas cuidado! Eles prestam serviços de graça para depois arrancarem tudo o que podem de você.
Eles são divididos em várias subespécies. Existem os mudos. São aqueles que não falam nada. Você senta e vomita suas loucuras em cima dele enquanto ele faz pequenas anotações e balança a cabeça afirmativamente. Sempre afirmativamente. Fato que provoca certa confusão. Imagine o paciente transtornado: - acho que vou matar meu chefe!E o terapeuta lá, balançando a cabeça para cima e para baixo como aqueles cachorrinhos de brinquedo. A diferença é que se o cara contasse isso para o cachorrinho não teria que pagar 200 paus.
Existem aqueles que são a própria reencarnação de Sigmund Freud. Mal você senta no sofá já te perguntam como foi a sua infância. Prosseguem perguntando se você tem problemas sexuais. Depois, se você tem problemas com a sua mãe. Por fim, se você tem problemas sexuais com a sua mãe. Fuja desses ou você vai acabar se convencendo de que é pansexual, homofóbico, pedófilo, apaixonado pela própria mãe ou tudo isso ao mesmo tempo.
Outra subespécie são os carentes. Esses, na realidade, não estão nem um pouco interessados na sua vida. Só fazem perguntas que se encaixam com os dilemas que eles mesmos estão enfrentando no momento. É como aquela vizinha chata que pergunta como vai o seu casamento só para poder desabafar sobre o próprio marido que tem uma amante. Ou te questiona sobre distúrbios alimentares, só para confessar que ela própria acabou de vomitar o mac lanche feliz que comeu no almoço.
Existe também o terapeuta amigo. É aquele que escuta o que você tem a dizer e depois fornece a própria opinião sobre o assunto. Até aí tudo bem. Tudo bem se a opinião fosse profissional e não irritantemente pessoal. É aquele que mistura suas convicções políticas, religiosas e sentimentais no mesmo balaio. Por isso é chamado de psicólogo amigo. Esse tipo pode ser totalmente substituído por qualquer amigo seu que não fez faculdade e o mais importante, não vai te cobrar 200 paus.
Os novos alienistas são muito ocupados. Eles dividem o seu tempo entre a aula de natação matinal, os conselhos que dão para aquele irmão problemático com aquela penca de filhos e um cônjuge repressor, as aulas de origami seguidas das sessões de acupuntura para relaxar e em meio a tantos afazeres arrumam um tempinho para se encontrarem com seus pacientes e lhes aplicarem uma dose de loucura semanal. Enfim, é infinita a variedade desses profissionais e com certeza você já se deparou com algum desses ou até mesmo uma espécie rara ainda não encontrada. Eu poderia passar horas dissertando sobre o assunto, mas infelizmente já estou atrasada para minha sessão de terapia que, é claro, está me custando os olhos da cara!


